MUNDO MILITAR 

F-39 Gripen: A Nova Era do Combate Aéreo na Força Aérea Brasileira com a Estreia em Treinamentos Dissimilares

Por João Victor Castro, Forças Globais - 20 de Junho de 2026

O Batismo de Fogo Operacional: Gripen E/F Redefine a Doutrina de Combate Aéreo da FAB


A Força Aérea Brasileira (FAB) alcançou um marco operacional histórico com a primeira participação do caça F-39 Gripen em um Exercício Técnico de Combate Aéreo Visual Dissimilar (EXTEC WVR). Realizado na Base Aérea de Anápolis (BAAN) e encerrado em 12 de junho de 2026, o treinamento reuniu pilotos e aeronaves de diferentes unidades da Aviação de Caça, marcando o início de uma nova era para a doutrina de combate aéreo da FAB. A atividade não apenas validou a integração do Gripen em cenários complexos, mas também proporcionou um adestramento progressivo crucial para as tripulações em conceitos de combate aéreo Within Visual Range (WVR) – ou seja, dentro do alcance visual.


Este evento é de suma importância para a FAB, pois representa a concretização de anos de planejamento e investimento na modernização de sua frota de caças. O Gripen, com sua tecnologia de ponta e capacidades multifuncionais, está agora sendo testado e integrado em cenários de combate realistas, preparando a Força Aérea para os desafios do século XXI.

O Cenário do Exercício: DACT e a Importância do Combate Dissimilar

O Exercício Técnico de Combate Aéreo Visual Dissimilar (EXTEC WVR) é uma modalidade de treinamento avançado onde aeronaves com características, tamanhos, tecnologias e doutrinas de emprego distintas se enfrentam. Popularmente conhecido como DACT (Dissimilar Air Combat Training), esse tipo de adestramento é fundamental para a Aviação de Caça, pois simula cenários de combate contra adversários potenciais, cujas aeronaves possuem desempenhos e sistemas diferentes dos próprios caças da FAB. O objetivo principal é expor os pilotos a situações em que precisam adaptar suas estratégias rapidamente, não podendo depender apenas de espelhar o desempenho de suas próprias aeronaves.


No EXTEC WVR, o F-39 Gripen enfrentou aeronaves como o F-5M e o A-1M (AMX), operados por unidades como o Primeiro Grupo de Defesa Aérea (1º GDA) – Jaguar, o Primeiro Grupo de Aviação de Caça (1º GAVCA) e o Primeiro Esquadrão do Décimo Quarto Grupo de Aviação (1º/14º GAV), Esquadrão Pampa, e o Primeiro Esquadrão do Décimo Grupo de Aviação (1º/10º GAV) – Esquadrão Poker. Essa diversidade de plataformas permitiu explorar as características particulares de cada vetor, identificando vantagens, limitações e oportunidades de emprego tático em diferentes situações operacionais, desde os fundamentos básicos até cenários complexos de combate aéreo dissimilar 2x1.

Por que o DACT é Crucial?

O DACT é vital para o desenvolvimento de pilotos de caça por várias razões:


  • Realismo de Combate: Simula com maior fidelidade as condições de um combate real, onde o adversário raramente voa em uma aeronave idêntica ou com as mesmas capacidades.

  • Adaptação Tática: Força os pilotos a pensarem de forma criativa e a adaptarem suas táticas e técnicas para explorar as fraquezas do oponente e maximizar as vantagens de sua própria aeronave.


  • Conhecimento do Inimigo: Permite que os pilotos compreendam melhor as capacidades e limitações de diferentes tipos de aeronaves, o que é essencial para a inteligência de combate.


  • Desenvolvimento de TTPs: Contribui para o desenvolvimento e amadurecimento de Táticas, Técnicas e Procedimentos (TTPs) específicos para o emprego de novas aeronaves, como o Gripen, em diversos cenários.


  • Segurança de Voo: Ao treinar em um ambiente controlado, os pilotos podem experimentar e aprender com erros que seriam fatais em um cenário real, aumentando a segurança operacional.

O F-39 Gripen: Um Vetor de "Quinta" Geração para a FAB

O F-39 Gripen E/F, desenvolvido pela sueca Saab, é um caça multifuncional de última geração, frequentemente classificado como 4.5 ou até mesmo 5ª geração, devido à sua avançada suíte de aviônicos, sensores e capacidades de guerra eletrônica. Para a FAB, o Gripen representa um salto tecnológico sem precedentes, substituindo gradualmente os antigos F-5M e A-1M, e elevando o patamar de defesa aérea do Brasil.

Características Técnicas e Capacidades Operacionais

O Gripen E/F incorpora uma série de tecnologias que o tornam um dos caças mais avançados do mundo:

  • Radar AESA (Active Electronically Scanned Array): O radar Raven ES-05, desenvolvido pela Leonardo, oferece capacidade de varredura eletrônica ativa, permitindo detecção e rastreamento de múltiplos alvos a longas distâncias com alta precisão, além de resistência a contramedidas eletrônicas.


  • Sistema de Busca e Rastreamento por Infravermelho (IRST): O Skyward-G, também da Leonardo, permite a detecção passiva de aeronaves inimigas, sem emitir sinais de radar, tornando o Gripen mais furtivo e letal em combates BVR (Beyond Visual Range – além do alcance visual).


  • Guerra Eletrônica (EW): O sistema de guerra eletrônica altamente sofisticado do Gripen, incluindo o Sistema de Autoproteção (SPS), oferece capacidades avançadas de autodefesa, detecção de ameaças e ataque eletrônico, permitindo ao caça operar em ambientes contestados.


  • Link de Dados Tático (Link BR2): Um sistema de comunicação seguro e criptografado que permite o compartilhamento de informações em tempo real entre aeronaves, centros de comando e unidades de superfície, criando uma consciência situacional compartilhada e otimizando a coordenação de missões.


  • Mísseis Ar-Ar: O Gripen é compatível com uma vasta gama de mísseis ar-ar, incluindo o avançado míssil BVR Meteor, que oferece uma zona de não-escape significativamente maior do que outros mísseis de sua categoria, e mísseis WVR como o IRIS-T e o AIM-9X, para combates aproximados.


  • Mísseis Ar-Superfície: Capacidade de empregar mísseis como o A-Darter (desenvolvido em parceria com a África do Sul), GBU-12 Paveway II, AGM-65 Maverick e o futuro míssil antinavio MAR-1, ampliando suas capacidades de ataque a alvos terrestres e navais.


  • Design Furtivo e Baixa Assinatura Radar: Embora não seja um caça de 5ª geração "puro" como o F-22 ou F-35, o Gripen incorpora elementos de design que reduzem sua assinatura radar, tornando-o mais difícil de ser detectado.

  • Manutenção Simplificada e Baixo Custo Operacional: Uma das grandes vantagens do Gripen é sua filosofia de design, que prioriza a facilidade de manutenção e o baixo custo operacional, características essenciais para uma força aérea com recursos limitados como a FAB.

O Impacto do Gripen no Combate WVR e BVR

A participação do F-39 Gripen no EXTEC WVR é um passo fundamental para o desenvolvimento de TTPs tanto para o combate visual quanto para o combate além do alcance visual. No cenário WVR, onde o Gripen enfrentou o F-5M, as diferenças de desempenho e tecnologia são gritantes. O F-5M, embora modernizado, é um caça de terceira geração, enquanto o Gripen representa um salto de duas gerações.

Gripen vs. F-5M: Um Confronto de Gerações

No combate WVR, a manobrabilidade, a taxa de giro, a aceleração e a capacidade de sustentação de energia são cruciais. O Gripen, com seu design delta-canard, oferece excelente agilidade e controle em baixas velocidades, características que são vantajosas em um dogfight. No entanto, o F-5M, sendo uma aeronave menor e mais leve, pode apresentar uma agilidade surpreendente em certas condições. O treinamento DACT permite que os pilotos do Gripen aprendam a explorar as fraquezas do F-5M e a maximizar as vantagens de seu próprio caça, como a superioridade de seus mísseis WVR e a consciência situacional proporcionada por seus sensores.


Além disso, a capacidade do Gripen de integrar dados de múltiplos sensores e compartilhar informações via Link BR2 oferece uma vantagem tática significativa, mesmo em combate visual. O piloto do Gripen tem uma visão muito mais completa do campo de batalha, podendo antecipar movimentos do inimigo e coordenar ataques com outras aeronaves de forma mais eficaz.

A Superioridade BVR do Gripen

Embora o EXTEC WVR tenha focado no combate visual, a verdadeira força do Gripen reside em suas capacidades BVR. O míssil Meteor, com seu motor ramjet, oferece uma capacidade de "no-escape zone" (zona de não-escape) incomparável, permitindo que o Gripen engaje e destrua alvos a longas distâncias antes mesmo de ser detectado. O radar AESA e o IRST complementam essa capacidade, fornecendo ao piloto do Gripen a capacidade de detectar, rastrear e engajar múltiplos alvos simultaneamente, mantendo-se fora do alcance de ameaças inimigas.


O treinamento DACT, ao expor os pilotos a cenários de combate visual, também os prepara para a transição para o combate BVR, onde a consciência situacional e a capacidade de tomar decisões rápidas são ainda mais críticas. A experiência adquirida no WVR ajuda os pilotos a entenderem como as características de voo e os sistemas de armas de diferentes aeronaves se comportam, o que é fundamental para o planejamento e execução de missões BVR.

O Papel da Base Aérea de Anápolis (BAAN) e as Unidades Envolvidas

A Base Aérea de Anápolis (BAAN) é o coração da aviação de caça da FAB e o lar do 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA) – Esquadrão Jaguar, a primeira unidade a operar o F-39 Gripen. A escolha da BAAN como sede do EXTEC WVR não é por acaso. A base oferece a infraestrutura necessária para a operação de aeronaves de alta performance e está estrategicamente localizada para permitir treinamentos em áreas de espaço aéreo restrito.


Além do 1º GDA, o exercício contou com a participação de outras unidades de caça, como o 1º GAVCA (Primeiro Grupo de Aviação de Caça), o 1º/14º GAV (Esquadrão Pampa) e o 1º/10º GAV (Esquadrão Poker). Essa integração de diferentes esquadrões e aeronaves é crucial para a padronização de TTPs e para a criação de uma doutrina de combate unificada para a FAB.

A Importância da Troca de Experiências

Durante o EXTEC WVR, foram realizados workshops voltados à discussão e padronização de conceitos de combate WVR. Essa troca de experiências entre pilotos de diferentes esquadrões e aeronaves é inestimável. Pilotos mais experientes em F-5M e A-1M podem compartilhar seus conhecimentos sobre táticas de combate visual, enquanto os pilotos do Gripen podem apresentar as novas capacidades e desafios que o caça de última geração traz para o cenário de combate.


Essa interação promove o fortalecimento da construção doutrinária da Aviação de Caça, garantindo que a FAB esteja sempre atualizada com as melhores práticas e as mais recentes tecnologias. A utilização de flares e mísseis de treinamentos reais durante o exercício proporcionou um elevado grau de realismo às missões, ampliando os ganhos operacionais e aprimorando a capacidade de resposta dos pilotos em situações de estresse.

Segurança de Voo e Excelência Operacional

Um dos aspectos mais notáveis do EXTEC WVR foi o resultado expressivo no campo da Segurança de Voo. O exercício foi concluído sem o registro de qualquer incidente ou acidente aeronáutico, ou ocorrência em solo, durante todo o período. Esse balanço evidencia o elevado nível de planejamento, coordenação e disciplina operacional das Unidades Aéreas e dos Grupos Logísticos participantes.


A segurança de voo é uma prioridade máxima para a FAB, especialmente em treinamentos complexos como o DACT. A capacidade de conduzir um exercício dessa magnitude sem incidentes demonstra a maturidade e o profissionalismo das equipes envolvidas, desde o planejamento até a execução das missões.


Os ganhos operacionais obtidos ao longo das duas semanas reforçam a permanente busca da Aviação de Caça pela excelência no preparo de seus tripulantes. A FAB está comprometida em assegurar que seus pilotos estejam capacitados para atuar tanto em cenários de combate aéreo visual quanto em missões além do alcance visual (BVR), garantindo a defesa e a soberania do espaço aéreo brasileiro.

O Futuro da Aviação de Caça da FAB com o Gripen

A estreia do F-39 Gripen em treinamentos DACT é apenas o começo de uma longa jornada de integração e desenvolvimento. À medida que mais unidades do Gripen forem incorporadas à FAB e mais pilotos forem treinados, a capacidade operacional da Força Aérea Brasileira será exponencialmente ampliada.


O Gripen não é apenas um caça; é uma plataforma de sistemas que permite à FAB operar em um ambiente de rede, integrando informações de diferentes fontes e compartilhando-as em tempo real. Essa capacidade de "guerra em rede" é fundamental para os conflitos modernos, onde a consciência situacional e a velocidade de decisão são fatores críticos para o sucesso.


Além disso, o programa Gripen envolve uma significativa transferência de tecnologia para o Brasil, o que fortalece a indústria de defesa nacional e capacita engenheiros e técnicos brasileiros a desenvolverem e manterem sistemas de alta tecnologia. Essa parceria estratégica com a Suécia garante que o Brasil não apenas opere aeronaves de ponta, mas também desenvolva sua própria capacidade de inovação e produção no setor aeroespacial.

Próximos Passos e Desafios

Os próximos passos para a FAB incluem a continuação dos treinamentos DACT, a expansão das capacidades BVR do Gripen, a integração com outros sistemas de defesa aérea e a formação de mais pilotos e equipes de manutenção. Os desafios incluem a adaptação da doutrina de combate aéreo para aproveitar ao máximo as capacidades do Gripen, a manutenção de um alto nível de prontidão operacional e a garantia de que a infraestrutura de apoio esteja sempre atualizada.


No entanto, a estreia bem-sucedida do Gripen em treinamentos DACT demonstra que a FAB está no caminho certo para se tornar uma das forças aéreas mais modernas e eficazes da América Latina. O F-39 Gripen é mais do que um caça; é um símbolo da ambição brasileira de proteger seu espaço aéreo e projetar seu poder no cenário internacional.

Conclusão: Um Novo Capítulo na Defesa Aérea Brasileira

A participação do F-39 Gripen no Exercício Técnico de Combate Aéreo Visual Dissimilar (EXTEC WVR) representa um divisor de águas para a Força Aérea Brasileira. A integração do caça de última geração em cenários de combate realistas, o desenvolvimento de Táticas, Técnicas e Procedimentos (TTPs) avançados e a troca de experiências entre os pilotos marcam o início de uma nova era para a aviação de caça nacional.


O Gripen não apenas eleva a capacidade de defesa aérea do Brasil a um patamar global, mas também impulsiona a inovação e a autossuficiência tecnológica no setor de defesa. Com sua combinação de tecnologia avançada, versatilidade operacional e baixo custo de manutenção, o F-39 Gripen está preparado para ser a espinha dorsal da defesa aérea brasileira nas próximas décadas, garantindo a soberania do espaço aéreo e a proteção dos interesses nacionais.


Este marco operacional reforça o compromisso da FAB com a excelência e a prontidão, assegurando que seus pilotos estejam sempre preparados para os desafios do combate aéreo moderno, tanto dentro quanto além do alcance visual. A história da aviação de caça brasileira ganha um novo e promissor capítulo com a plena integração do F-39 Gripen.

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