MUNDO MILITAR
Por João Victor Castro, Forças Globais - 11 de Junho de 2026
Após 55 anos de serviço ininterrupto da família Harrier, o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos conclui a transição para os caças furtivos F-35B, marcando o encerramento da trajetória de uma das aeronaves mais revolucionárias e icônicas da história da aviação militar.
Em 3 de junho de 2026, a Base Aérea de Cherry Point, na Carolina do Norte, foi palco de uma cerimônia histórica que selou a aposentadoria oficial do AV-8B Harrier II pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC). O evento reuniu pilotos, mecânicos, veteranos e autoridades militares para prestar uma última homenagem a uma aeronave que, por décadas, simbolizou a capacidade expedicionária e a inovação tática dos Marines. Com esta despedida, chega ao fim uma história de 55 anos de operações contínuas da família Harrier no USMC, iniciada em 1971.


Imagens do AV-8B Harrier na despedida do serviço ativo - Reprodução Internet
A trajetória do Harrier nos Estados Unidos começou com uma decisão audaciosa do Corpo de Fuzileiros Navais. No final da década de 1960, os Marines buscavam uma aeronave que pudesse operar de forma independente das grandes pistas da Força Aérea ou dos gigantescos porta-aviões da Marinha. Eles precisavam de um vetor que pudesse "viver" com as tropas no solo. Em 1971, o USMC introduziu o AV-8A Harrier, uma versão do Hawker Siddeley Harrier GR.1 britânico.
Essa introdução não foi isenta de ceticismo. Muitos na época duvidavam da utilidade de um jato pequeno, com carga útil limitada e um perfil de voo tão complexo. No entanto, os Marines provaram que a capacidade de decolar de clareiras em florestas ou de pequenos navios de assalto anfíbio era um divisor de águas tático. O AV-8A permitiu que o apoio aéreo aproximado fosse solicitado e entregue em minutos, e não em horas, mudando para sempre a doutrina de assalto anfíbio da corporação.
AV-8B Harrier II: Evolução e Versatilidade
A versão AV-8B Harrier II foi uma evolução significativa do projeto original britânico. Desenvolvida em uma colaboração entre a McDonnell Douglas (agora parte da Boeing) e a indústria aeronáutica do Reino Unido, a aeronave incorporou uma série de aprimoramentos que a tornaram ainda mais eficaz e versátil. Entre as principais melhorias, destacam-se:
Essas inovações transformaram o Harrier em uma plataforma de ataque formidável, capaz de fornecer apoio aéreo aproximado (CAS - Close Air Support) com precisão e agilidade em diversos teatros de operação.


Ao longo de sua extensa carreira operacional, o AV-8B participou de praticamente todos os grandes conflitos envolvendo os Estados Unidos nas últimas décadas. Sua presença foi notável em operações como:
Mesmo nos anos finais de sua operação, o AV-8B manteve sua relevância, participando de missões de segurança marítima e combate na região do Mar Vermelho, reforçando sua utilidade operacional até o último dia .


A aposentadoria do Harrier faz parte de um processo de modernização abrangente da aviação dos Marines. O plano estratégico prevê a substituição gradual de aeronaves de quarta geração por uma força composta principalmente pelos caças furtivos F-35B Lightning II e F-35C. O F-35B, em particular, é o sucessor direto do Harrier em termos de capacidade STOVL, mas com tecnologias de quinta geração que incluem:
Essa transição representa uma mudança histórica para o Corpo de Fuzileiros Navais. Enquanto o Harrier era uma plataforma puramente de ataque visual em seus primórdios, o F-35B é um "computador voador" invisível aos radares. A transição não é apenas sobre trocar um avião por outro, mas sobre mudar a forma como os Marines lutam. Com o F-35B, os esquadrões de assalto agora possuem a capacidade de realizar missões de superioridade aérea, supressão de defesas inimigas (SEAD) e inteligência eletrônica, tudo isso mantendo a capacidade STOVL que o Harrier inaugurou.
A complexidade de operar o F-35B a partir de navios da classe America ou Wasp é facilitada por sistemas de controle de voo digitais que tornam o pouso vertical muito mais seguro e preciso do que o processo manual e extenuante do Harrier. No entanto, o "espírito" do Harrier permanece: a capacidade de projetar poder aéreo a partir de locais inesperados. Os Marines já operam centenas de aeronaves da família F-35 e planejam consolidar essa frota como a espinha dorsal de sua aviação até a década de 2030


Apesar da chegada do F-35B, o Harrier ocupa um lugar único na história da aviação militar. Sua capacidade de operar em locais onde caças convencionais não conseguiam atuar ajudou a moldar a doutrina expedicionária dos Marines e influenciou o desenvolvimento de futuras aeronaves STOVL. O próprio F-35B é considerado um herdeiro direto dos conceitos operacionais introduzidos pelo Harrier décadas atrás .
Embora tenha deixado o serviço norte-americano, o AV-8B ainda continuará voando em algumas nações aliadas. A Itália mantém uma pequena frota em operação enquanto completa sua transição para o F-35B, e a Espanha continua a utilizar seus Harriers embarcados no navio anfíbio Juan Carlos I, sem um substituto imediato previsto para os próximos anos .
O encerramento das operações do AV-8B Harrier marca o fim de um dos capítulos mais importantes da história da aviação militar contemporânea. Poucas aeronaves conseguiram combinar inovação tecnológica, versatilidade operacional e longevidade da mesma forma que o Harrier. Sua aposentadoria encerra uma era iniciada há mais de meio século e consolida definitivamente a entrada dos Marines na era dos caças furtivos de quinta geração.