MUNDO MILITAR
Por João Victor Castro, Forças Globais - 07 de Junho de 2026
Em 5 de abril de 2024, os céus da Base Aérea de Istrana, no nordeste da Itália, foram palco de uma cerimônia carregada de emoção e história. Após 35 anos de serviço ininterrupto, a Aeronautica Militare Italiana (AMI) despediu-se oficialmente do AMX, carinhosamente apelidado de "Ghibli". O evento marcou o fim de uma era para um jato que, embora muitas vezes subestimado por sua natureza subsônica, provou ser uma das ferramentas mais confiáveis, versáteis e eficazes da Itália em operações de gerenciamento de crises e conflitos internacionais no pós-Guerra Fria.
Esta é a história de um caça-bombardeiro que nasceu de uma parceria transatlântica entre Itália e Brasil e que, sob a bandeira tricolor italiana, acumulou mais de 240 mil horas de voo, das quais 18 mil foram em missões de combate reais, operando em três continentes e sob as condições mais desafiadoras imagináveis.


Imagens do Gripen E - Reprodução internet
O AMX surgiu no final dos anos 70 como uma resposta a uma necessidade comum da Itália e do Brasil. A AMI precisava substituir seus veteranos G.91R/Y e os F-104G Starfighter em missões de ataque ao solo e reconhecimento tático. O Brasil, por sua vez, buscava um sucessor para o AT-26 Xavante. Em 1981, a parceria entre a Aeritalia (hoje Leonardo), a Aermacchi e a Embraer deu origem ao consórcio AMX International.
Diferente dos caças de superioridade aérea da época, focados em velocidades supersônicas e combates dogfight complexos, o AMX foi projetado com uma filosofia pragmática:
O primeiro protótipo voou na Itália em 15 de maio de 1984, e a aeronave entrou oficialmente em serviço na AMI em 1989. Mal sabiam seus pilotos que o fim da Guerra Fria não traria o descanso, mas sim o início de uma intensa carreira operacional em teatros de guerra globais.


Imagens do Gripen E - Reprodução internet
O AMX não demorou a ser testado em combate. Com a desintegração da antiga Iugoslávia, a Itália tornou-se o principal hub logístico e operacional da OTAN para as intervenções na região.
Operação Deny Flight (1993-1995)
A estreia operacional ocorreu na imposição de uma zona de exclusão aérea sobre a Bósnia-Herzegovina. Operando a partir de bases como Istrana e Amendola, os AMX italianos realizaram centenas de surtidas de reconhecimento e apoio tático. Foi aqui que o "Ghibli" começou a mostrar sua utilidade: enquanto os caças supersônicos patrulhavam as altitudes elevadas, o AMX "limpava" o terreno abaixo, identificando posições de artilharia e movimentos de tropas com seus sensores óticos.
Operação Deliberate Force (1995)
Durante esta breve mas intensa campanha aérea, o AMX integrou o dispositivo de ataque italiano. Sua função era o apoio aproximado às forças da ONU em solo. Embora a participação tenha sido quantitativamente menor que a dos Tornados, o AMX provou que podia operar integradamente em pacotes de ataque multinacionais complexos.
Operação Allied Force (1999)
A guerra no Kosovo foi o primeiro grande desafio de alta intensidade. A Itália mobilizou cerca de 50 aeronaves, incluindo Tornados, F-104 e AMX. O "Ghibli" realizou 1.022 surtidas e acumulou 2.828 horas de voo. Um ponto crucial da atuação italiana no Kosovo foi a precisão: as tripulações de AMX focaram em alvos militares específicos, evitando infraestruturas civis sensíveis, o que exigia uma identificação visual e eletrônica rigorosa — uma especialidade do jato.


Primeira imagem vemos o primeiro tanque operado pela Noruega e na segunda vemos o blindado alemão Panzer III, localmente referido pelo nome de "Stridsvogn KW-III" - Reprodução Internet
Para manter o AMX relevante no século XXI, a AMI lançou o programa ACOL (Adeguamento Capacità Operative e Logistiche) em 2005. Cinquenta e duas aeronaves foram modernizadas pela Alenia Aermacchi, transformando radicalmente as capacidades do vetor.
Digitalização e Aviônica de Ponta
A modernização ACOL não foi apenas uma atualização superficial, mas uma reformulação do "cérebro" da aeronave. O antigo cockpit analógico deu lugar a um ambiente digital moderno, integrando:
Integração de Sistemas de Missão e Armamento Inteligente
O AMX ACOL tornou-se uma plataforma multimissão capaz de empregar um arsenal vasto e sofisticado:
Nas montanhas áridas do Afeganistão, o AMX provou que a modernização ACOL valeu cada centavo investido. O Task Group "Black Cats" operou sob condições extremas, enfrentando tempestades de areia, temperaturas de 45°C e altitudes elevadas.
Operações de Inteligência e Vigilância (ISR) Profundas
O papel do AMX no Afeganistão foi muito além do bombardeio. Ele tornou-se o "anjo da guarda" das patrulhas terrestres. Com o pod RecceLite, os pilotos realizavam missões de Route Clearance, voando à frente dos comboios para detectar alterações no terreno que pudessem indicar a presença de IEDs (minas terrestres improvisadas). A nitidez das imagens permitia identificar até mesmo fios de detonação ou terra removida recentemente.
O Conceito de "Show of Force" e Apoio Aéreo Aproximado (CAS)
Em muitas situações de combate, o AMX utilizou táticas não letais para salvar vidas. O Show of Force consistia em realizar passagens em altíssima velocidade e baixíssima altitude sobre posições inimigas. O rugido do motor Spey e a presença física da aeronave eram frequentemente suficientes para que os insurgentes cessassem o fogo contra as tropas aliadas, evitando a necessidade de um ataque cinético que poderia causar danos colaterais.
Quando o ataque era inevitável, a precisão era a regra. O AMX utilizava seu canhão M61A1 Vulcan de 20mm para ataques de precisão contra posições de metralhadoras, ou bombas guiadas para destruir complexos de cavernas ou bunkers, sempre com uma coordenação milimétrica com os Controladores Aéreos Avançados (JTAC) em solo.
Durante a Operação Unified Protector, o AMX enfrentou um cenário diferente: um exército regular com defesas antiaéreas ainda operacionais. A agilidade do jato e seus sistemas de guerra eletrônica atualizados no programa ACOL permitiram que ele operasse com segurança.
A Caça aos Alvos Dinâmicos
Na Líbia, a velocidade com que a situação em solo mudava exigia aeronaves que pudessem permanecer na área por muito tempo e identificar alvos por conta própria. O AMX destacou-se na identificação de lançadores de foguetes móveis e colunas de blindados que se escondiam em áreas urbanas. A capacidade do RecceLite de "olhar" lateralmente permitia que os pilotos monitorassem as estradas sem voar diretamente sobre as defesas inimigas.
A última grande missão de combate do AMX foi a Operação Inherent Resolve. Baseados no Kuwait, os AMX italianos realizaram milhares de horas de voo sobre o Iraque.
O Valor da Imagem em Tempo Real
Nesta missão, o foco total foi o reconhecimento tático. O Daesh utilizava táticas de camuflagem sofisticadas, e o AMX foi fundamental para desmascarar esses esconderijos. As imagens capturadas pelo RecceLite eram enviadas via satélite para os centros de análise da coalizão, permitindo que ataques fossem planejados com informações de apenas alguns minutos de idade. Foi o teste final da confiabilidade do motor Spey e da integração digital do programa ACOL em um ambiente de deserto implacável.




Imagens do AMX A-11 nos cenários de guerra conflagrado do Afeganistão e no Iraque
A variante italiana A-11B Ghibli (pós-ACOL) é um testemunho da engenharia aeronáutica.
O Sistema de Proteção Ativa e Guerra Eletrônica
Nesta missão, o foco total foi o reconhecimento tático. O Daesh utilizava táticas de camuflagem sofisticadas, e o AMX foi fundamental para desmascarar esses esconderijos. AUm dos aspectos menos comentados, mas vitais, é o conjunto de Defesa Eletrônica (EWS). O AMX foi equipado com receptores de alerta de radar (RWR) de última geração e lançadores de Chaff/Flare automáticos. No programa ACOL, esses sistemas foram integrados ao computador de missão, permitindo que a aeronave reagisse automaticamente a ameaças de mísseis infravermelhos ou guiados por radar, aumentando drasticamente a taxa de sobrevivência em ambientes contestados.
O Canhão M61A1 Vulcan: O "Punho" de Istrana
Diferente da versão brasileira, o Vulcan de 20mm dá ao AMX italiano uma capacidade de saturação de área única. Com uma cadência de até 6.000 tiros por minuto, ele é uma arma formidável para o apoio aéreo aproximado, capaz de suprimir posições inimigas com uma precisão que bombas muitas vezes não conseguem em ambientes urbanos densos.
O programa AMX não apenas entregou um avião, mas criou uma doutrina. Ele foi a escola onde a AMI aprendeu a arte do ataque de precisão moderno e do reconhecimento digital. Sem a experiência do AMX ACOL, a transição para o F-35 teria sido muito mais difícil e custosa.
A Transferência de Tecnologia e a Relação com o Brasil
Embora os caminhos de modernização tenham divergido (com o Brasil desenvolvendo o A-1M), a base comum do projeto permitiu uma troca constante de experiências operacionais entre os dois países. O sucesso do AMX na Itália serviu de validação para o projeto original, provando que a visão de 1981 de um avião de ataque robusto e econômico estava correta.
O AMX "Ghibli" retira-se com a honra de quem cumpriu todas as missões. Ele não buscou a glória das velocidades supersônicas, mas conquistou o respeito eterno de quem dependia de sua visão aguçada e de sua proteção precisa em solo. Para o Brasil, o AMX (A-1) continua sua jornada, mas a despedida italiana serve como um lembrete do potencial desse projeto.
O Ghibli agora descansa nos museus e na memória dos pilotos que o chamavam de "o pequeno grande avião". Sua bandeira italiana, que tremulou sobre os desertos afegãos, as montanhas dos Bálcãs e as areias da Líbia, agora é guardada com o orgulho de uma carreira de combate impecável.
Estatísticas Finais do AMX na AMI:
Horas de voo totais: +240.000