MUNDO MILITAR
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Por João Victor Castro, Forças Globais - 27 de abril de 2026
A Base Aérea de Talavera la Real, em Badajoz, foi palco de um evento que mistura nostalgia e orgulho para a aviação militar europeia. A Força Aérea e do Espaço da Espanha (Ejército del Aire y del Espacio) celebrou oficialmente a marca de 300.000 horas de voo com a frota do Northrop F-5 Freedom Fighter. Mais do que um número, o feito representa a espinha dorsal da formação de caçadores espanhóis por mais de meio século.
Para marcar a ocasião, uma aeronave SF-5M recebeu uma pintura especial comemorativa, destacando o logotipo das 300 mil horas sobre a fuselagem cinza, um tributo visual às gerações de pilotos e mecânicos que mantiveram o "Tiger" (como é carinhosamente chamado) cruzando os céus da Península Ibérica.


A trajetória do F-5 na Espanha começou no final dos anos 1960, em um contexto de necessidade de modernização rápida e econômica. O acordo com a Northrop não foi apenas uma compra de prateleira; foi um motor para a indústria nacional. Das 70 unidades adquiridas inicialmente, a maioria foi fabricada sob licença pela CASA (Construcciones Aeronáuticas S.A.), hoje integrada ao grupo Airbus.
Detalhes da Frota Original | Informação |
|---|---|
Modelos Adquiridos | SF-5A (Monoposto) e SF-5B (Biposto) |
Quantidade Total | 70 aeronaves |
Início da Operação | 1970 |
Fabricação | Licença local pela CASA |
Essa transferência de tecnologia foi fundamental para consolidar a Espanha como um player relevante no setor aeroespacial europeu, permitindo que o país passasse de mero operador a fabricante de componentes complexos.
A Evolução para o Padrão F-5M
Embora o design básico date da Guerra Fria, os F-5 que voam hoje em Talavera estão longe de serem obsoletos. Entre 2000 e 2004, a frota passou por uma profunda modernização liderada pela Indra em colaboração com a Israel Aerospace Industries (IAI), elevando as aeronaves ao padrão F-5M.
Esta atualização transformou o cockpit analógico em um ambiente digital moderno (Glass Cockpit), incluindo:
Graças a esse "banho de loja", o F-5M conseguiu cumprir com maestria sua missão na Ala 23: preparar os novos pilotos para a transição complexa rumo aos caças de primeira linha, como o Eurofighter Typhoon e o EF-18 Hornet.
Ala 23: O Ninho dos "Patas Negras"
A Ala 23, conhecida como a "Escola de Caça e Ataque", é o coração pulsante da formação de pilotos de combate na Espanha. Localizada estrategicamente em Talavera la Real, a unidade tem como missão principal a transição dos alunos da Academia Geral do Ar (AGA) para o exigente mundo do voo supersônico e tático.
Os alunos que chegam à Ala 23 são carinhosamente apelidados de "Patas Negras". O termo, que remete à excelência do presunto ibérico de alta qualidade, simboliza o status de elite desses cadetes, que superaram as fases anteriores de voo básico e avançado para finalmente assumir os comandos de um jato de combate.
O Papel do F-5 na Aprendizagem
O F-5M não é apenas um avião de instrução; ele funciona como um laboratório de combate. O papel da aeronave nesta ala é introduzir o aluno em ambientes de alta carga de trabalho, onde a velocidade e a manobrabilidade exigem decisões em frações de segundo.
O treinamento é dividido em duas unidades complementares:
O Currículo de Formação: Horas de Voo e Exigência
O curso de "Caza y Ataque" na Ala 23 é um dos mais rigorosos da Europa. Ele começa anualmente em setembro e estende-se até maio ou junho do ano seguinte.
Fase do Treinamento | Informação |
|---|---|
Duração do Curso | Aproximadamente 9 meses |
Horas de Voo no F-5 | Entre 80 e 100 horas por aluno |
Fases do Curso | Transição, Voo por Instrumentos, Formação, Combate Ar-Ar e Ar-Solo |
Simulador | Cerca de 40 a 50 horas de treinamento sintético |
Durante essas horas, o aluno evolui de voos de adaptação simples para missões complexas de combate simulado, incluindo o uso de radares e sistemas de armas integrados no padrão digital do F-5M. Ao final das cerca de 90 horas de voo real, o piloto recebe suas "asas de caçador" e está apto a seguir para as Unidades de Conversão Operacional (OCU) do Eurofighter Typhoon ou do EF-18 Hornet.
Do Passado ao Futuro: O Salto Tecnológico para o Hürjet
Apesar da modernização para o padrão F-5M realizada pela Indra nos anos 2000 — que introduziu o Glass Cockpit e sistemas de missão integrados — o tempo é implacável. Para garantir a continuidade da formação de alto nível, a Espanha assinou, no final de 2025, um contrato histórico com a Turkish Aerospace Industries (TAI).
O acordo, avaliado em aproximadamente 2,4 a 2,6 bilhões de euros, prevê a aquisição de 30 aeronaves TAI Hürjet. O contrato não se resume apenas aos aviões, mas inclui um pacote completo de suporte logístico, simuladores de missão de última geração e a integração da indústria espanhola, com a Airbus España desempenhando um papel fundamental na manutenção e suporte do sistema ao longo de seu ciclo de vida de 30 anos.
Comparativo Técnico: F-5M vs. TAI Hürjet
A transição do F-5M para o Hürjet não é apenas uma troca de aviões, mas uma mudança de paradigma educacional. O Hürjet é um jato de treinamento avançado (LIFT - Lead-In Fighter Trainer) projetado nativamente para a era digital.
Característica | Northrop F-5M Freedom Fighter |
TAI Hürjet
|
|---|---|---|
Motorização | 2x GE J85-GE-21 (Turbojatos) | 1x GE F404-GE-102 (Turbofan) |
Empuxo (com Pós-combustão) | ~10.000 lbs (total) | ~17.600 lbs |
Velocidade Máxima | Mach 1.4 | Mach 1.4 |
Teto de Serviço | 51.000 pés | 45.000 pés |
Controles de Voo | Hidromecânicos (Cabos/Polias) | Fly-by-Wire Digital Total |
Aviônicos | Digitalizado (Adaptado) | Digital Nativo (Fusão de Sensores) |
Capacidade de Carga | ~3.200 kg | ~2.720 kg |
Interface Homem-Máquina | Cockpit Misto (Analógico/Digital) | Large Area Display (LAD) de 5ª Geração |
GREAT UPDATES






Por que o Hürjet?
A grande vantagem do Hürjet sobre o veterano F-5M reside na sua arquitetura de Treinamento Sintético Integrado. Enquanto o F-5M simula ameaças de forma limitada, o Hürjet permite que o aluno enfrente inimigos virtuais projetados diretamente em seu display de combate enquanto voa, preparando-o de forma muito mais realista para operar caças de 5ª e 6ª gerações. Além disso, o motor F404 (o mesmo do Hornet) oferece uma eficiência de combustível e confiabilidade significativamente superiores aos antigos turbojatos J85.
Conclusão: Um Ícone Eternizado
As 300 mil horas de voo do F-5 na Espanha são um testemunho da engenharia de excelência e da dedicação da Ala 23. O "Tiger" não apenas defendeu os céus espanhóis, mas forjou o caráter de mais de 2.000 pilotos. Quando o primeiro Hürjet tocar a pista de Talavera la Real em 2028, ele carregará o peso de um legado de segurança e bravura, tendo o F-5 como o mestre que ensinou a nação a voar em regime supersônico.